Eu tinha sete anos em Rio Claro. A sala era simples, com paredes azuis e carteiras de madeira. Havia um silêncio ali que convidava às palavras. Sob os olhos de Dona Eliana, o mundo se abriu. Ela era uma feiticeira das letras; ensinava que cada sílaba tinha vida e cada palavra tinha asas.
Dona Eliana me alfabetizou com carinho. Lembro das tardes em que ela se inclinava sobre minha carteira, o perfume floral. Havia algo ritualístico no gesto de juntar letras. Ela repetia: “Vamos juntar as letras.” Quando eu formava a palavra, ela batia palmas. “Muito bem, Leci!”, e seus olhos brilhavam.
Com ela, descobri que ler era descobrir o mundo. Lia “rio” e o via correndo; lia “árvore” e sentia o vento nas suas folhas; lia “borboleta” e o céu ficava salpicado de asas. Dona Eliana contava histórias cheias de espanto. Eu saía da sala sentindo que o mundo crescia no peito. Cada palavra era um pedaço de mim.
Apaixonei-me pelo poder das palavras. Escrever me colocaria perto do Criador. Havia reverência em dar nome ao que era sensação. Nomear era resistir ao esquecimento. As palavras eram pontes entre o invisível e o visível, e eu queria atravessá-las.
Foi nessa época que ouvi a palavra “panapaná”. Lembro dela escrevendo no quadro: panapaná, coletivo de borboletas. Fiquei encantado; a palavra transbordava. Era mágica. Havia nela um movimento que nenhuma definição continha. Pronunciá-la era soltar um punhado de asas. Mais tarde, descobri que as palavras são ferramentas para tocar o mundo.
Por que só em português surgiu a necessidade de nomear o coletivo de borboletas? Descobri que era o nome tupi para o voo. Não é só “muitas borboletas”, é o bater (paná) das asas, o “bater-bater” delas no ar, o acontecimento vivo que atravessa o céu. Naquele instante, olhei para a palavra, sentindo o ritmo na língua. As letras aprenderam a voar.
Dizer “panapaná” é recusar a indiferença diante da beleza frágil. É olhar para o céu e pensar que aquilo merece ritmo, quase uma música. Talvez a alfabetização seja o momento sagrado em que alguém nos ajuda a dar o primeiro passo para que nossa língua aprenda a voar. Carrego essa gratidão leve — como um panapaná que bate no peito. Talvez por isso eu tenha me tornado professor.
Hoje, quando o mundo corre rápido, volto com saudade àquela sala. As borboletas continuam voando, mas nem sempre paramos para notar o panapaná. Raramente nos convidam a sentir o bater-bater delicado das asas ou o espanto de uma palavra bem escolhida.
Escrever nunca me aproximou de Deus como eu imaginava. Mas me aproximou da capacidade humana de escutar o mundo — e, em vez de silenciá-lo, respondê-lo com palavras que sabem voar. Escrevo para preservar esse espanto antigo. Para lembrar que a língua pode aprender a voar — desde que tenhamos alguém como Dona Eliana que nos mostre o caminho. E, quem sabe, para que um dia meus próprios textos possam fazer alguém olhar para o céu e dizer, com o coração leve: “Olha… um panapaná”.

Deixe um comentário