André Filipe Porta

André Filipe Porta, é advogado contratualista, especialista em Direito Civil e Gestão Pública, Pós Graduado em Direito Comercial e Público, MBA em Comércio Internacional, estudante de Letras, escritor na maior parte do tempo e eterno aprendiz.

Membro da Academia de Letras Rio-Clarense – ALERC-SP, (em construção).


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O Crepúsculo da Incerteza

Na encruzilhada do meio século, onde a juventude já não é uma promessa e a velhice ainda parece um horizonte distante, reside um homem que, aos olhos do mundo, sente personificar certo sucesso. Sua trajetória é um mosaico de conquistas pessoais, diplomas empilhados como troféus silenciosos, especializações que atestam uma mente inquieta e um profissionalismo verdadeiro. No mercado de trabalho, conquistou respeito, fruto da competência e lealdade aos princípios. Na esfera social, é o amigo de riso fácil, o viajante que coleciona histórias e o escritor que tece mundos próprios com palavras, um espírito alegre que ilumina o ambiente. Há mais de duas décadas, compartilha a vida com a mesma mulher, forte e batalhadora, um porto seguro em meio às tempestades da existência, e sua extensa prole, pérolas raras, surgem como a materialização de um amor que transcende o tempo, isso é o que parece.

Contudo, por trás da fachada de plenitude, pulsa uma alma atormentada por uma melancolia sutil, um desassossego que afluí das profundezas da autocrítica. Ele, o homem de várias facetas e aparentes êxitos, sente-se um eterno devedor. A pressão da vida, essa força invisível e onipresente, o comprime. Acha que faz pouco, que poderia fazer mais, que deveria ser melhor para sua família e amigos. O aparente conforto financeiro após anos de dedicação, não é um bálsamo para essa inquietude; ao contrário, parece intensificar a cobrança, um eco sutil, mas persistente, que ressoa em seu seio familiar, a busca incessante por mais, por um patamar ainda mais elevado de segurança e bem-estar, a eterna corrida moderna pelo que não se tem o trabalhar para trabalhar, o desejo mutante que nunca se alcança.

No espelho não há o reflexo apenas da maturidade, mas também os primeiros sinais de uma inevitável passagem. Pequenos problemas de saúde, sussurros do tempo que avança, começam a pontuar a narrativa de seu corpo. Por mais que a alma se recuse a envelhecer, que o espírito se mantenha jovem e vibrante, a realidade biológica impõe suas verdades. O desejo de proporcionar mais segurança à sua família, de materializar sonhos como uma casa de campo, ou de arcar com mimos mais elaborados, torna-se uma obsessão. O amor, esse sentimento puro e incondicional que ele dedica, parece, em sua percepção, insuficiente nos moldes tecnológicos e materialistas da atualidade. O afeto, por si só, não compra a casa dos sonhos, não paga a escola de ponta, não garante o celular de última geração que a prole tanto almeja. A sociedade, em sua voracidade consumista, parece ter redefinido o valor do amor, atrelando-o a bens tangíveis, a experiências que o dinheiro pode comprar, frustrando seus pensamentos da juventude, do que realmente significava ser feliz e transmitir felicidade, muitas vezes levantando dinheiro que não tem para impressionar pessoas que não se importam, ou pior, tentando comprar o amor dos mais próximos com futilidades ou falsas expectativas.

Ele se vê, então, entre a cruz e a espada, num dilema que corrói a paz interior. Deve ele, o pai esforçado, o guia, cobrar dos filhos uma excelência que possa levar a superar seus próprios feitos, a trilhar caminhos de sucesso ainda maiores, a fim de garantir-lhes um futuro mais seguro e próspero? Ou deve ele soltar as rédeas, permitir que a vida siga seu curso natural, que os filhos descubram seus próprios caminhos, ainda que isso implique em elevados riscos e incertezas? A ideia de desligar-se dessas preocupações, de viver sua vida e deixar a família viver como bem entender, soa como uma libertação, mas também como uma irresponsabilidade. O perigo de deixar os filhos seguirem seu caminho por si, sem a bússola de sua experiência e a pressão de suas expectativas, é um fardo pesado demais para sua consciência, isso o incomoda do nascer do dia ao anoitecer.

Neste palco da existência moderna, onde a velocidade da informação e a efemeridade das conexões ditam as regras, o valor do real se esvai. Um personagem da internet, uma miragem digital que sequer pode ser real, parece mais interessante, mais digno de atenção, do que os amigos de carne e osso, do que os pais que dedicam suas vidas. A superficialidade das redes sociais, a busca incessante por validação virtual, a cultura da aparência, tudo isso contribui para um cenário onde o amor, a lealdade e a presença genuína são relegados a um segundo plano, ofuscados pelo brilho fugaz do dinheiro e da fama instantânea, ainda que irreal ou aparente, o ter apenas por ter, sem necessidades, puramente o consumismo que chegou e dominou. A tecnologia, que deveria ser uma ferramenta para aproximar, paradoxalmente, afasta, se apresenta como salvação e muitas vezes tem levado a perdição. As conversas profundas são substituídas por mensagens curtas, os encontros reais por interações virtuais, e sem qualquer barreira. A busca por significado, antes intrínseca à condição humana, parece ter sido terceirizada para algoritmos e influenciadores digitais. E ele, que sempre valorizou a profundidade das relações, a riqueza do conhecimento e a beleza da arte, sente-se um anacrônico, um vestígio de um tempo que se esvai, e como se esvai.

Essa dicotomia entre o que se é e o que se espera ser, entre o que se tem e o que se deseja ter, é o cerne de sua angústia. Ele é um homem de certo sucesso, sim, mas o sucesso, em sua definição contemporânea, é um alvo em constante movimento, uma miragem que se afasta a cada passo, o sucesso de outrora, enraizados em seus pensamentos, e que tanto buscou, que em breve lembrança era a materialização de ter um bom emprego, um lar, uma família formada, a ida ao circo, meios próprios de locomoção, a honestidade, lealdade, já não são mais suficientes. Agora uma casa melhor, presentes caros, a segurança financeira absoluta para a família, tudo isso se torna símbolo de um amor que ele teme não ser suficientemente demonstrado, não ser suficientemente valorizado em um mundo que mede o afeto em cifras e bens materiais, não os bens almejados por todos como uma casa própria e sim a negativa de compra de um mero par de tênis que custa a despesa com o supermercado de um mês todo, e isso ele fica devendo, e parece que todo o esforço profissional e sentimental termina com a negativa da compra. A simplicidade do amor, a beleza da presença, a riqueza das memórias compartilhadas, parecem ter perdido seu brilho diante do esplendor efêmero do consumo, e da atual demonstração de amor pelo que se pode proporcionar.

E os filhos, essas pessoas amadas, são o espelho de suas maiores esperanças e de seus mais profundos medos. Ele os quer livres, felizes, realizados. Mas como garantir essa liberdade e felicidade em um mundo tão complexo e, por vezes, hostil? A pressão para que sejam melhores do que ele, para que alcancem um patamar de sucesso que ele mesmo, com toda a sua bagagem, ainda questiona, é um paradoxo. Ele ama incondicionalmente suas crianças que já são maiores que muitos adultos, mas esse amor se manifesta também na ânsia de protegê-las, de pavimentar um caminho menos tortuoso, de oferecer-lhes as ferramentas para navegar por um oceano de incertezas. No entanto, ele sabe que a vida é, por essência, uma jornada de descobertas e desafios, e que a superproteção pode ser tão prejudicial quanto à negligência, talvez a velocidade de hoje e as mudanças o pegaram de surpresa, e ele não conseguiu se adaptar.

O dilema da paternidade, neste século XXI, é amplificado pela avalanche de informações e pela constante comparação. Os pais de hoje não competem apenas com outros pais, mas com um ideal inatingível de perfeição parental, propagado por mídias sociais e especialistas de toda sorte, a internet deu voz para pessoas pouco qualificadas e que estão conosco virtualmente na maior parte do dia, e nos questionam e a apresentam um mundo supostamente ideal,  ideal para eles evidentemente, que via de regra estão ali para levar nosso tempo e dinheiro. A culpa, esse sentimento corrosivo, se instala facilmente, minando a confiança e a alegria de educar. Ele se vê questionando cada decisão, cada palavra, cada gesto, na esperança de moldar seres humanos, éticos e felizes, mas temendo, ao mesmo tempo, impor suas próprias frustrações e expectativas, e sentido esse peso.

E assim, ele caminha, equilibrando-se na corda bamba da existência, entre o desejo de proteger e a necessidade de libertar, entre a busca por segurança e a aceitação da incerteza. Seu coração, repleto de amor e preocupação, é um campo de batalha onde a razão e a emoção trava um combate incessante. Ele sabe que não há respostas fáceis, que a vida é um emaranhado de tentativas e emoções. Mas, em meio a essa turbulência, ele se agarra à esperança, à resiliência de seu espírito e à força de seu amor, pois, em seu intimo acredita que o mundo não foi arquitetado para ser raso assim, do contrário estamos criando falsas expectativas que chegaram sorrateiramente com a modernidade e as ilusões atuais, e estão invadindo as mentes, em especial as mais jovens com pouca vivência e recebendo uma enxurrada de informações de toda categoria sem nenhum filtro. Pois, no final das contas, acredita firmemente que o verdadeiro legado não são os bens materiais, muito menos os apelos virtuais, mas os valores da vida transmitidos, as memórias reais construídas e o amor incondicional que, apesar de todas as pressões e desafios, continua a ser a força motriz de sua existência e luta diária. E talvez, apenas talvez, essa seja a maior, quiçá a única segurança que ele pode proporcionar a si mesmo e para sua família, a convicção de estar em busca de uma vida digna, real, pautada no amor, que em seu íntimo, resiste ao tempo, às cobranças e às efemeridades do mundo moderno.