Crônicas

  • A medusa que existe em nós

    Desde adolescente senti o peso da solidão. E sei que não estou sozinha nessa barca. Creio que ela nasce com a gente, enrosca-se em nosso viver como uma medusa de mil cabeças, por cujos olhos espiamos a vida passar, sem ter coragem de vivê-la plenamente. E a gente vai espiando, espiando, mas fica de longe,…

  • Não sei

    Se abrir as horas vou perceber que fui pisoteada, anestesiaram-me com produtos que eu jamais necessitei, por estar andando por essas vias dos humanos sou arrancada facilmente do meu lugar-comum e jogada no discurso do Estado: sim presa mansa desse monstro. Devo voltar a leitura de Nietzsche? E apostar no potencial de criação e de…

  • Dia qualquer

    O requinte que passo esses dias tem a impressão de um olhar contemplativo de Alfredo Volpi esculpindo nas tintas suas bandeirinhas. Por mais que essas sombras da estética se desgastam em combinações de cores e traços, as linhas em viés não alcançam esses dias de pura existência. A branda visão esquelética do meu ser deixa…

  • Seria o amor, um sobrevivente dos tempos contemporâneos?

    A situação atual do setor de casamento e divórcio continua sendo marcada por grandes transformações impulsionadas por diversos fatores sociais, culturais e legais. Observa-se um declínio no número de casamentos em muitos países, incluindo o Brasil. As pessoas estão se casando mais tarde na vida, optando por construir suas carreiras e alcançar estabilidade financeira antes…

  • Relação do Piloto Anônimo – 1@ parte: de Portugal a Porto Seguro (Bahia)

    Hoje apresentarei a quarta e última certidão de nascimento do Brasil: a Relação do Piloto Anônimo. E já no título surge a grande questão sobre quem a escreveu. O tradutor desta versão – o professor de História Jean M. C. França – respondeu que a hipótese mais aceita é a do Professor William Greenlee que,…

  • Infância (curta)

    – Bate duas vezes e volta aqui. Regra simples, movimentos rápidos. A brincadeira continuava. Cada volta era um ponto, mas o outro grupo também ganhava e a velocidade determinaria quem ganhava. – Acabou. Vencemos! Somos nós que dormimos na cama. Com o irmão mais novo, antes do sono vir, perscrutava os veios deixados no chão…

  • Interessante recomeçar

    Com o barulho das sirenes de viaturas em perseguição, despertei zonzo, com pequena dor no pescoço. Olhei para mim e vi que estava sujo, jogado ao fundo de um beco escuro, ladeado por muros altos encimados por grades melancólicas. Os prédios escuros ao lado indicavam que não havia movimentação por perto. O silêncio era sutil,…

  • Gratidão à vida

    Li uma vez que, para a realização pessoal nessa vida é preciso ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Filhos, eu os tive, frutos do amor. Árvores, plantei algumas, curto plantas e flores e me dedico a elas. Livros eu os leio com interesse e prazer. Na simplicidade dessa trilogia: filhos, árvores…

  • O mar

    O mar me inspira canções, poemas… Quando vislumbro a imensidão e beleza extasiante, lembro-me da narrativa de Eduardo Galeano que diz sobre o deslumbramento do menino em frente ao mar pela primeira vez. Trêmulo pede ao pai: “me ajuda a olhar?” Entendo o menino. Para olhar para o mar, apenas o sentido da visão não…

  • Aconchego

    As tardes de outono são deliciosas. O clima ameno, o céu de um azul límpido, quase sempre sem nuvens, e um por do sol resplandecente. Curto as tardes de outono, mas me reporto aos meus tempos de menina, quando era tranquilo andar pelas ruas e usufruir toda beleza, toda paz do cair da tarde. E,…