O milagre de Verônica

Conheci duas Verônicas nessa minha existência. Uma, na minha tenra infância, nas procissões que se faziam na Semana Santa, com o Senhor ensanguentado carregando uma cruz. Num dado momento, uma cantora vestida de roxo e rosto coberto, começava a cantar uma canção muito triste, exibindo um pano que ia se desenrolando aos poucos, mostrando um rosto cabeludo, muito esquisito. Para ser sincero, eu tinha medo e me agarrava à perna de meu pai. Dizia ele que eu tivesse dó, que era o rosto de Jesus, que por milagre ficou a imagem dele no pano, quando uma devota enxugou seu rosto cansado de levar a cruz. Era o momento da Santa Verônica!  De pronto, perguntei por que é que ele carregava a cruz… mas isso é um outro versículo, que não entra nessa história.  

A segunda Verônica, conheci com maior propriedade ao assistir à I Orquestra Neurodivergente do Brasil, grande concerto de inclusão, regido por ela. No palco do auditório do Centro Cultural Roberto Palmari, garotos e garotas, rapazes e senhoras autistas, sob a regência e maestria de Verônica, cantavam e tocavam violinos, baixos e percussão com destreza atenta e aplicada. A regência e a maestria, contudo, não se notavam apenas no domínio da técnica, mas no afeto, no cuidado e na dedicação com que ela regia o milagre de fazer esses indivíduos se expressarem com o carinho da sua batuta. De seu gesto indicando ritmo e movimento emanava o dedicado esforço do seu cotidiano para fazer com que cada um deles superasse seus limites através dos instrumentos, do canto, enfim, pela música, pela arte! Diante da singeleza da apresentação, senti a alma tocada e enternecida. Dos rostos circunspectos e aguerridos de cada um dos integrantes emanava uma vibração da alma plena e recompensada pelo desafio. Na sequência da apresentação, olhando aqueles rostos empenhados em dar o melhor de si, confesso que por vezes foi difícil segurar a emoção. O que se notava era que o desafio, tanto dos instrumentistas, do coral e da regente, a empreitada fora imensa. Imensa e prazerosa pelo que se via e podia sentir.  

Essa segunda Verônica também faz milagre!

A simplicidade tocante da apresentação trazia em sua simplicidade uma atmosfera de que há dedicação que ultrapassa a linha das dificuldades. Que vale a pena os momentos de entrega quando tudo resulta em algo grandioso, não o exuberante, mas a revelação da medida de humanidade que cabe a cada um ofertar.

O que se assistiu nessa apresentação foi, antes de tudo, uma grande lição de generosidade humana capaz de atrair ao redor de si um conjunto de outros gestos altruístas, para assim tornar a ousadia uma realização possível. Realização esta, de fazer aflorar o talento por vezes adormecido e ignorado, daqueles que nem sempre têm a oportunidade de revelar, por desconhecimento ou desamparo. A isso tudo podemos chamar de educação imprescindível.  

Carinhoso abraço, Verônica! 


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