Tempos idos, tempos lindo

Era eu e o Ligação pra lá e pra cá nos arredores do Seminário dos Padres Estigmatinos e Igreja da Santa Cruz. Ligação recebeu essa alcunha por lidar com tomadas e fios elétricos quando ajudávamos na limpeza ou na manutenção da sacristia, conforme o Irmão Benedito solicitava. Irmão Benedito merece uma descrição à parte. Era um verdadeiro pau pra toda obra. Baixa estatura, franzino, de olhinhos redondos, sempre de batina preta. Devotado, cuidava absolutamente de tudo o que se referia às demandas da igreja. Puxava o terço às noitinhas, rezava as trezenas de Santo Antônio e cantava uma música belíssima, que adorávamos cantar: Tantum ergo! Tantum ergôõ saacraamento… venereemur cernuiii

Às vezes o ajudávamos a varrer o piso da igreja, estender um longo tapete vermelho, desde a porta de entrada até o altar, para os casamentos, ou missas dos dias santos, como Natal e o Domingo de Páscoa. Era com Irmão Benedito que ajudávamos a montar o presépio, ouvíamos histórias da vida dos santos e, com os olhinhos cheios dos primeiros hormônios, ouvíamos atentamente que um pecado não contado no confessionário era um sacrilégio, um pecado grave, de segundo grau! Era assim nosso cotidiano com esse Irmão Benedito, que guardo ternamente como uma relíquia de infância.

Bem, voltando ao Ligação. O apelido quem lhe dera foi o Irmão Benedito! Além dos pequenos reparos, era ele e eu que descíamos para um pátio na parte de baixo da igreja onde ficava um campanário com os sinos para anunciar as missas e as atividades religiosas. O campanário sustentava três pesados sinos, vindos da Itália, por quatro toras de madeira com as correntes que pendiam até quase ao chão. Aí começava a alegria: enquanto um puxava o suporte do sino, agarrado à corrente, no contrafluxo, o outro subia! A cena dos dois coroinhas, com a batina esvoaçando pelos ares, era hilária!

Quando chegavam os barris de vinho para a consagração nas missas, uma das Irmãs que cuidavam das refeições dos padres chamava a gente para engarrafar, antes de levá-las à sacristia. Com voz firme e olhos claros arregalados atrás de grossas lentes, fazia-nos jurar sob o sinal da cruz, non beber una só gota de vino! Ao final, tínhamos que tomar uma caneca de leite puro, sob o decreto de que a mistura com o vinho faria muito mal e, sob pecado, exigia confissão!

Bem, não morri no dia seguinte, mas segundo os princípios do Irmão Benedito, só hoje confesso um sacrilégio guardado há tanto tempo.

Depois, chegou um padre, mais austero, com ar sempre preocupado e era não muito amigável aos alegres e arteiros pirralhos, como a Tia Guida, a organista da igreja assim nos chamava. Ela era muito afetiva e querida pela turminha! O padre, era o Padre Simeão que veio posteriormente e começou a construção da Torre da Santa Cruz, como ficou conhecida! Aí ocorre um fato trágico, mas conto outro dia!

Tempos idos, tempos findos, tempos lindos!


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