Eu sempre fui uma criança peculiar. Não o tipo peculiar simpático, de filme americano: aquele garoto sensível que todo mundo subestima e que, no final, ganha o coração da turma. Não. Eu era o tipo de peculiar que levava os adultos a trocarem olhares discretos à mesa do jantar.
Aos treze anos, debatia o imperativo categórico de Kant com quem só queria saber do recreio. Questionava se o mundo era real — obrigado, Platão — enquanto meus colegas tinham a sensatez de se preocupar com figurinhas e o lanche. Tinha uma vocação sobrenatural para esvaziar qualquer ambiente com uma citação fora de lugar. Minha mãe dizia que eu era “avançado para a idade”. Meus colegas diziam outras coisas.
Foi nesse estado de graça intelectual precoce que chegou o dia da visita ao laboratório de anatomia da universidade. A professora anunciou a excursão com aquele entusiasmo pedagógico de quem acredita que crianças de treze anos precisam ver órgãos em formol para se tornarem cidadãos melhores. Talvez precisem. Não sou eu quem vai julgar.
O laboratório tinha aquele cheiro — quem sabe, sabe. Uma mistura de ciência, seriedade e algo que te lembra que você é orgânico e temporário. As crianças entraram em silêncio, o que, para um grupo de pré-adolescentes, já é milagre.
E então eu vi. Ali, numa bandeja metálica, sob a luz fria, estava um cérebro humano, inteiro, real e quieto, com a gravidade de quem já pensou tudo o que tinha para pensar.
Não sei explicar o que aconteceu nos três segundos seguintes. Mas ali, segurando aquela massa cinzenta entre as mãos, dois pensamentos colidiram: cogito ergo sum, murmurou Descartes num ouvido — penso, logo existo. E, no outro, Shakespeare respondia, com Hamlet sorrindo torto: mas será que vale a pena existir?
O técnico ainda abriu a boca, mas não foi rápido o suficiente. Ergui o cérebro à altura do rosto e, com a solenidade trágica de quem nasceu para o palco, declarei, com a voz impostada:
“To be or not to be? That is the question.”
O silêncio que se seguiu tinha textura. A professora fechou os olhos por um segundo mais longo do que o necessário. Um colega começou a rir e não conseguiu parar. Outro saiu com a mão na boca, por razões distintas.
Mais tarde, já adulto, percebi que Descartes e Shakespeare fizeram a mesma pergunta — só que com temperamentos opostos. Descartes duvida de tudo e sobe: encontra no pensamento uma âncora inabalável. Pensa, logo se salva. Hamlet também pensa — e é aí que o problema começa. Para ele, a consciência não é salvação, é fardo. O cérebro é idêntico. O que muda é o que cada um faz quando ele dispara.
Descartes e Hamlet não são opostos. São o mesmo homem em dias diferentes, e eu era um menino que não sabia disso ainda. Só soube erguer um cérebro e recitar Shakespeare num laboratório, como se a filosofia fosse um gesto e não uma ferida.
Talvez seja as duas coisas. Mas isso, felizmente, eu aprendi depois.

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