Nem todos recebem o privilégio de alcançar os 73 anos. Por isso, antes de tudo, ergo minha gratidão a Deus — que tantas vezes me carregou no colo, silencioso e firme, conduzindo-me até aqui com saúde e vigor.
Agradeço também pelas quedas, pelos tropeços que me ensinaram a levantar. Pela lucidez que, ainda cedo, me revelou a dureza da vida e a urgência da luta — pelo pão de cada dia e pelo saber que liberta e transforma. Foi essa consciência que me conduziu, de menina simples e sem letras, à ousadia de fundar e presidir a Academia de Letras Rio-clarense.
E por que pensar nisso agora?
Porque aniversários não são apenas festa, nem somente alegria ou contemplação. São portais invisíveis — gatilhos profundos que nos convidam a atravessar ciclos, a revisitar memórias, a encarar o presente e a sondar o futuro que, aos poucos, se encurta.
É tempo de rever caminhos, de redesenhar rotas, de rabiscar, em folhas talvez trêmulas, as prioridades que ainda insistem em pulsar dentro de nós.
Confesso: aos 73 anos, minha lista é sincera, despojada de ilusões. Nela habitam sonhos antigos ainda não vividos, caminhos evitados por dor ou medo, mas que agora se impõem como necessários. Há decisões a serem tomadas — entre elas, pendurar de vez as chuteiras, aquietar o corpo, cultivar o silêncio.
Mas há também aquilo que me mantém viva: a escrita.
Ela ainda me chama — seja na revisão e edição de livros alheios, seja, sobretudo, na gestação do meu terceiro livro: “Dona Doida no Divã”. Uma travessia íntima, uma autobiografia tecida com dores antigas, desde a infância até as cicatrizes da alienação parental, já na maturidade. Um relato que não busca apenas lembrar, mas transformar — para que filhos e pais sofram menos, para que o amor encontre caminhos mais leves.
Chegar aos 73 não é tarefa simples. Exige lágrimas silenciosas, renúncias necessárias, o abandono de certos compromissos — até mesmo daqueles que nasceram do coração generoso. Exige, sobretudo, voltar-se para dentro, talvez com um toque de egoísmo inevitável, e perguntar: quem fui? quem sou? quem ainda posso ser?
O tempo, caprichoso, já me desacelera. Por isso, agarro as energias que restam como quem segura um sopro precioso — na esperança de ainda realizar o que pulsa em mim, enquanto houver tempo.
E se, daqui a um ano, a vida me permitir alcançar os 74, volto a contar — com mais histórias, mais aprendizados, talvez novos caminhos. Quem sabe mais árduos, mais ásperos…
Mas sempre com o coração agradecido por cada instante vivido, por cada lição, por cada gesto de amor ao próximo. Porque, no fim, é isso que permanece.
E viva la vita!

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