Antologia

  • Faísca da vida

    Chegamos ao mundo como uma faísca: pequenos lampejos de vida em meio às grandes labaredas da existência. E, por falar em labaredas, talvez elas façam parte dessa extraordinária explosão de moléculas, átomos, células, nervos e ossos que dão forma ao organismo humano. Somos fogo desde o princípio. Os dias passam, e essa pequena faísca permanece…

  • Muito além das figurinhas

    Há quem diga que a Copa do Mundo dura apenas algumas semanas. Aprendi que, quando ela desperta encontros e sorrisos, permanece para sempre na memória. Foi assim que começou a nossa história: com um álbum de figurinhas. À primeira vista, era apenas papel e imagens coloridas. Mas, na escola, aquele álbum se transformou em muito…

  • Hamlet e eu

    Eu sempre fui uma criança peculiar. Não o tipo peculiar simpático, de filme americano: aquele garoto sensível que todo mundo subestima e que, no final, ganha o coração da turma. Não. Eu era o tipo de peculiar que levava os adultos a trocarem olhares discretos à mesa do jantar. Aos treze anos, debatia o imperativo…

  • Infância não é trabalho

    Há crianças que deveriam estar correndo atrás de pipas, inventando mundos com gravetos e transformando quintais em universos inteiros. No entanto, muitas carregam sobre os ombros responsabilidades que não deveriam conhecer tão cedo. O trabalho infantil continua sendo uma realidade silenciosa que atravessa cidades, campos e periferias, muitas vezes escondida por discursos que romantizam o…

  • Tempos idos, tempos lindo

    Era eu e o Ligação pra lá e pra cá nos arredores do Seminário dos Padres Estigmatinos e Igreja da Santa Cruz. Ligação recebeu essa alcunha por lidar com tomadas e fios elétricos quando ajudávamos na limpeza ou na manutenção da sacristia, conforme o Irmão Benedito solicitava. Irmão Benedito merece uma descrição à parte. Era…

  • Panapaná

     Eu tinha sete anos em Rio Claro.  A sala era simples, com paredes azuis e carteiras de madeira. Havia um silêncio ali que convidava às palavras. Sob os olhos de Dona Eliana, o mundo se abriu. Ela era uma feiticeira das letras; ensinava que cada sílaba tinha vida e cada palavra tinha asas.  Dona Eliana…

  • O milagre de Verônica

    Conheci duas Verônicas nessa minha existência. Uma, na minha tenra infância, nas procissões que se faziam na Semana Santa, com o Senhor ensanguentado carregando uma cruz. Num dado momento, uma cantora vestida de roxo e rosto coberto, começava a cantar uma canção muito triste, exibindo um pano que ia se desenrolando aos poucos, mostrando um…

  • A vida é cíclica

    Nem todos recebem o privilégio de alcançar os 73 anos. Por isso, antes de tudo, ergo minha gratidão a Deus — que tantas vezes me carregou no colo, silencioso e firme, conduzindo-me até aqui com saúde e vigor. Agradeço também pelas quedas, pelos tropeços que me ensinaram a levantar. Pela lucidez que, ainda cedo, me…

  • Autora da própria história

    Como escritora sou autora de muitas histórias, umas calcadas em vivências, outras baseadas em fatos vividos por diferentes pessoas e muitas frutos da imaginação.  Escrever é relativamente fácil quando se tem o dom, o gosto pela leitura e escrita e a busca contínua do conhecimento.  Será que escrever a própria história real tem a mesma…

  • O crepúsculo da incerteza

    Na encruzilhada do meio século, onde a juventude já não é uma promessa e a velhice ainda parece um horizonte distante, reside um homem que, aos olhos do mundo, sente personificar certo sucesso. Sua trajetória é um mosaico de conquistas pessoais, diplomas empilhados como troféus silenciosos, especializações que atestam uma mente inquieta e um profissionalismo…